Alzira Rufino

“Foi a primeira escritora negra a ter seu depoimento gravado no Museu de Literatura
Mário de Andrade, em São Paulo/SP.
Convidada da III Feira Internacional do Livro Feminista, realizada em l988, no Canadá,
onde participou de um painel internacional de escritoras negras e lançou seu livro de poemas “Eu, mulher negra, resisto”.
Convidada da V Feira Internacional do Livro Feminista, em l992, na Holanda.
Tem artigos publicados em jornais e revistas  dos Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha,Índia, Chile e Senegal.”

Dados extraídos do site:

http://www.casadeculturadamulhernegra.org.br/alzira-rufino/biografia/

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Fonte: https://sapatariadf.wordpress.com/tag/alzira-rufino/

crioula

eu sou crioula decente
não sou vil
estou nas cordas
em equilíbrio

de um brasil
a minha cor apavora
essa raça agride ouvi dizer
não é nos dentes do negro
não é no sexo do negro
é na arte do negro
de viver
melhor dizendo

sobreviver
com essa coisa que arrasta
o tronco que tentam esconder
mas esses troncos existem

no conviver
os troncos estão nas favelas
vejo troncos nas vielas
nas moradias fedidas

nas peles sem esperança
nas enxurradas de não
no jogo das damas e reis
eu me perdi

nas rotas dos estiletes
nas celas e nos engodos
negro carretel de rolo
querem fazer um mundo
marginal crioulo.
femineira

baraculê
eu sou mulhé
baraculé
femineira
responde a lua
minha sei lá
diz que o sol é forte
mas vive no luá
da mulhé na rua.

disparidade

minha flor se traduz
menina
mulher

há duas coisas em mim
medo
coragem
que se acasalam
e me lançam
entre lagoas
de águas paradas
entre rios
que correm numa só direção

entre o mar que sofre
a mudança de quatro luas
entre a semana verde
e a seca
que amedronta
entre o fuso
horário das horas
que se adiantam
entre açoite e o berro
entre a fumaça e cruz
entre calçada e alcova
entre a bula e a homeopatia
minha loucura se traduz
entre a mulher e o homem
eu quero ser a metade
sensibilidade
a parteira não errou
quando em meus olhos olhou
canto choro disparidade

se esconde por quê criança?
caramujo não é verdade
pois nele só vence o sol
a lama esconde apaga
mangue floresce ninguém vê
talvez a lua entenda

deus, que é a liberdade?
entre a chuva o vento
guarda-chuvas são bobagens
não há termômetro, barômetro
para medir esta verdade
estouram porque não aguentam
o fogo da realidade.

em teu olho escuro

cesira na tarde
dor no sangue
com medo da noite
incomodas o povo
que não vê
em teu olho escuro
a íris do amanhecer

tiraste o ferrolho das grades
tiraste os pés do chão
cesira
perdida

um jeito de rosa

suas lutas pela preservação da vida
você síntese
sorriso nos olhos
um aperto de mãos

tecendo mensagens
ora com o grito ora como gemido
às vezes com o murmúrio das águas

nos movimentos
lutas feministas
diálogo apaixonado
passando a luta da mulher
entrelaçada emoção sensibilidade
transformações

como um caminho que renasce
em cada ato em cada luta
em cada noite sem sono

companheira
acordamos deste triste sonho
a procura de nascentes
mulheres e sementes

o sol cuidará fazendo brilhar
juntaremos nossas mãos outra vez
ficou de ti a essência da flor
para renascer outras vezes
e nos revelar de novo
o outro lado da raiz
rosas e suor de corpos

desafiando o escândalo de vida

poema para rosa gouveia da silva
companheira vitimada num
atentado terrorista
dia 25 de junho de 1986 – peru

minha solidariedade
tua minha poesia

seus poemas encontram-se no site da Casa de Cultura da Mulher Negra.

Graça Graúna

“Graça Graúna é descendente de potiguaras e se formou em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Também fez um mestrado sobre mitos indígenas na literatura infantil e se doutorou em literatura indígena contemporânea no Brasil. É autora de Canto Mestizo (Ed. Blocos, 1999), Tessituras da Terra (Edições M.E, 2001) e Tear da Palavra, de 2007. Escreveu obras infanto-juvenis como Criaturas de Ñanderu (Ed. Manole, 2010).” GEISLER, Luisa.

Disponível em:

<http://visibilidadeindigena.blogspot.com/2016/04/cinco-escritoras-indigenas.html&gt;.

Ver a imagem de origem
Fonte: https://idarennes.hypotheses.org/

CUMPLICIDADE

(GRAÇA GRAÚNA)

Agora e pela hora da minha agonia
louvo Trindade
e Jorge de Lima
cantando
catando
as duras penas

– De onde vem, Solano, esta agonia?
– Vem de longe, minha nega, de muito longe!
De Africamérica sonhada
lá, donde crece la palma
plantada en versos de alma
del hombre José Martí

– De onde vem, Solano, esta agonia?
– Vem de longe, nega!
Do comecinho das coisas,
de muito longe, nega,
muito longe.

Graça Graúna. Cumplicidade, In: Tessituras da Terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.17.

SER POTIGUABA
– Vamu apanhá sol?
– Vamu.

De sal a sol, multiplicar a semente
pelo caminho de volta
com Tupuna sorrindo. 
– Graça Graúna, em “Poesia para mudar o mundo”. (org.). Leila Míccolis,
 Blocos online, 2013.

Acesse o blog da autora aqui!

Oswaldo de Camargo

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Fonte: https://www.geledes.org.br/tag/oswaldo-de-camargo/

“Nasci em Bragança Paulista, SP, em 1936. Dos 12 aos 17 anos estudei no Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, de onde sai em 1954. Sou herdeiro de buscas culturais de negros do País que, no início do século XX, começaram a reavaliação da situação do elemento afro-brasileiro e partiram para uma tentativa de inseri-lo social e culturalmente, tendo como armas sobretudo agremiações de cultura, jornais alternativos para a coletividade, teatro negro, a literatura, sobretudo a escrita por poetas de temática afro-brasileira, como Lino Guedes e Solano Trindade. Estreei minha carreira de poeta em 1959, época onde era diretor de cultura da Assosiação Cultural do Negro e revisor do Jornal Estado de S.Paulo, empresa onde iniciei minha carreira no jornalismo. Na prosa estreei em 1972 e em 1978 com novela. Tive, editado em 1987, pela Secretaria de Estado da Cultura O NEGRO ESCRITO – Apontamentos sobre a presençado negro na literatura brasileira. Tenho poemas traduzidos para o alemão, francês e espanhol. Em 1998, recebi, da Secretaria de Cultura de Santa Catarina, a “Medalha Cruz e Souza”. Hoje sou coordenador de literatura do Museu Afro Brasil, em São Paulo.”

Biografia retirada do blog de Oswaldo de Camargo. Para saber mais sobre o escritor e poeta, acesse: 

http://oswaldodecamargo.blogspot.com/2008/11/obras.html!

 

GRITO DE ANGÚSTIA

Dê-me a mão.

Meu coração pode mover o mundo com uma pulsação.

Eu tenho dentro em mim anseio e glória que roubaram a meus pais.

Meu coração pode mover o mundo, porque é o mesmo coração dos congos, bantos e outros desgraçados, é o mesmo.

É o mesmo coração dos que são cinzas e dormem debaixo da Capela dos Enforcados.

É o coração da mucama e do moleque.

Eu conheço um grito de angústia trovejante, que deve estarrecer todas as minhas amantes que eu tenho decerto.

Eu conheço um grito de angústia. Eu posso escrever este grito de angústia e eu posso berrar este grito de angústia.

Quer ouvir?

“Sou um negro, senhor. Sou um negro.”

Poema criado por Abdias aos 19 anos. (15 poemas negros)

EM MAIO

Oswaldo de Camargo

Já não há mais razão para chamar as lembranças

e mostrá-las ao povo

em maio.

Em maio sopram ventos desatados

por mãos de mando, turvam o sentido

do que sonhamos.

Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça

e desce às praças das bocas entreabertas

e começa:

Outrora, nas senzalas, os senhores…”

Mas a Liberdade que desce às praças

nos meados de maio,

pedindo rumores,

é uma senhora esquálida, seca, desvalida

e nada sabe de nossa vida.

A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,

vem montada no ombro dos moleques

ou se esconde

no peito em fogo dos que jamais irão

à praça.

Na praça a Esperança se encolhe

ante o grito: “Ó bendita Liberdade!”

E esta sorri e se orgulha, de verdade,

do muito que tem feito…

 

Abdias Nascimento

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Fonte: http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/o-genocidio-do-negro-brasileiro-livro-de-abdias-nascimento-sera-relancado

“Nascido em 1914 no município de Franca, Estado de São Paulo, Abdias foi filho de Dona Josina, a doceira da cidade, e Seu Bem-Bem, músico e sapateiro. Embora de família pobre, conseguiu se diplomar em contabilidade em 1929. Aos 15 anos alistou-se no exército e foi morar na capital São Paulo, onde anos depois se engajou na Frente Negra Brasileira e se envolveu na luta contra a segregação racial.

Dramaturgo, poeta e pintor, atuou também como deputado federal, senador e secretário de Estado onde desenvolveu aspectos dessa luta. Autor das obras SortilégioDramas para Negros e Prólogo para Brancos e O Negro Revoltado, relatou em seus livros as realidades quilombolas e levantou temas como o pensamento dos povos africanos, combate ao racismo, democracia racial e o valor dos orixás nas religiões de matriz africana. 

Com uma trajetória marcada pelo ativismo, Abdias teve como resultado de suas iniciativas importantes desdobramentos na defesa e na inclusão dos direitos dos afrodescendentes brasileiros. Conquistas de suas lutas foram a contemplação da natureza pluricultural e multiétnica do país na Constituição de 1988, a criminalização do racismo e os primeiros processos de demarcação das terras de quilombos.”

Dados extraídos do site: 

http://www.palmares.gov.br/person-abdias-nascimento

O AGADÁ DA TRANSFORMAÇÃO
Abdias Nascimento

Em meu peito vazio de despeito
Oxum fincou o seu ixé
sou o peixe mergulhado
no canto do pássaro odidê
pousado na folha da vida
trinando a ternura
que aconchega a criança

Ó peixe dourado que vais nadando
os dias e as noites da minha sorte
emblema de Oxum me levando
águas de Oxalá me lavando
no banho lustral da minha morte

Existo em minha natureza Ori
levedado pelos Orixás
embora o costado dos ancestrais
clame
a costa dos escravos
proclame
o cravo cravado no lombo
me tombando no tombo
da contra-costa rebelada do meu axé
inflamando na chaga do congo
a chama incendiária do quilombo

basta ouvir o som grave do rum
o repicar do rumpi
o picar agudo do lé
e as irmãs negras portadoras do sofrimento
os homens moldados nos crepes ancestrais
em uníssono clamor
de convulsivo furor
desde a degradação e o opróbrio
desfraldam a bandeira
úmida do sangue negro derramado
no combate vermelho sempre continuado
pela integridade verde da herança nativa poluída

Somos a semente noturna do ritmo
a consciência amarga da dor
florescida aos toques anunciadores
da perenidade das coisas vivas
(…)

Ouçamos o pipocar do couro retesado
(ó agadá da transformação)
rompendo a couraça do insensível mundo
branco
na sola dos pés sangrentos
temos dançando
o madrigal da escravidão
o minueto do tráfico
o fado do racismo
agora na pele flamejante dos tambores
dancem eles o nosso baticum de guerra
até despontar aquela aurora
de dançar o afoxé da nossa batalha final vitoriosa
(…)

Tempo de viver
(ensina Ajacá)
é tempo de morrer
uns já estão mortos
vivendo
nós estaremos vivos
morrendo

Morrer enquanto cintila no meu peito
o ixé áureo de Oxum
enquanto caminho a ancestralidade da minha
terra
nas pegadas temerárias de Ogum
ao fio do agadá
transformo a queixa muda das irmãs negras
neste canto marcial de esperança
de cada soluço teu
irmão
faço uma bala de fuzil
impeço que a bondade amoleça tua revolta
e tua dança perca o embalo da trincheira
tornando tua coreografia
grávida de símbolos
em vil moeda de espetáculo mercantil

Vem do fundo escuro do tambor
esse aflito olhar magoado
(não vencido apenas derrotado)
das irmãs e irmãos em África
fixo olhar pungente
absorvendo a beleza vital do meu corpo
incrustação do ixé
projeção amorosa de Oxum
em minha origem plantado
por desígnio paterno de Olorum
o olhar a devolvendo
à intensidade e pungência
da antiga luta comum
processada à regência
do agadá transformador
e do nosso cálido
recíproco
e solidário amor

Ogunhiê!

Salvador, 14 de janeiro de 1982
(Dia da lavagem do Senhor do Bonfim).

Que tal dar um giro pelo site do Abdias Nacional 90 anos – colóquio?

Click aqui e assista ao documentário da TV SENADO sobre a trajetória de Abdias do Nascimento.

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Daniel Munduruku

Nasceu em Belém, PA, filho do povo Indígena Munduruku. Formado em Filosofia, com licenciatura em História e Psicologia, integrou o programa de Pós-Graduação em Antropologia Social na USP. Lecionou durante dez anos e atuou como educador social de rua pela Pastoral do Menor de São Paulo. Esteve em vários países da Europa, participando de conferências e ministrando oficinas culturais para crianças.

Autor de Histórias de índio, coisas de índio e As serpentes que roubaram a noite, os dois últimos premiados com a Menção de livro Altamente Recomendável pela FNLIJ. Seu livro Meu avô Apolinário foi escolhido pela Unesco para receber Menção honrosa no Prêmio Literatura para crianças e Jovens na questão da tolerância. Entre outras atividades, participa ativamente de palestras e seminários destacando o papel da cultura indígena na formação da sociedade brasileira. Pela Global Editora tem publicado várias obras.
Dados extraídos do site: 

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus nasceu no interior de Minas Gerais, em Sacramento, no dia 14 de março de 1914. Vinda de uma família extremamente pobre, tinha mais sete irmãos e teve que trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa. Por isso, estudou apenas até o segundo ano primário.

Na década de 30, mudou-se para São Paulo e foi morar na favela do Canindé. Ganhava seu sustento e de seus três filhos catando papel. No meio do lixo, Carolina encontrou uma caderneta, onde passou a registrar seu cotidiano de favelada, em forma de diário. Segundo Magnabosco, “mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu em Sacramento por ser negra e pobre, Carolina revela, através de sua escritura, a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política de uma cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade”.

Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, repórter da Folha da Noite, Carolina teve suas anotações publicadas em 1960 no livro Quarto de Despejo, que vendeu mais de cem mil exemplares. A obra foi prefaciada pelo escritor italiano Alberto Moravia e traduzida para 29 idiomas. Em 1961, o livro foi adaptado como peça teatral por Edi Lima e encenado no Teatro Nídia Lícia, no mesmo ano.

Sua obra também virou filme, produzido pela Televisão Alemã, que utilizou a própria Carolina de Jesus como protagonista do longa-metragem Despertar de um sonho (inédito no Brasil). Em 1963, Carolina publicou, pela editora Áquila, o livro Pedaços da Fome, com apresentação de Eduardo de Oliveira. Em 1965 publicou Provérbios. Em 1977, durante entrevista concedida a jornalistas franceses, Carolina entregaria seus apontamentos biográficos, onde narrava sua infância e adolescência.

Em 1982 o material foi publicado postumamente na França e na Espanha, sendo lançado no Brasil em 1986, com o título Diário de Bitita, pela editora Nova Fronteira. Carolina foi uma das duas únicas brasileiras incluídas na Antologia de Escritoras Negras, publicada em 1980 pela Random House, em Nova York. Também está incluída no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis, publicado em Lisboa por Lello & Irmão. Carolina faleceu em São Paulo, em 13 de fevereiro de 1977.

Fonte: http://www.acordacultura.org.br/heroi…

Quer conhecer mais sobre a história da autora Carolina Maria de Jesus? Acesse o link “A vida de Carolina de Jesus além da favela do Canindé, seu quarto de despejo” – El País (Cultura) e fique por dentro!

POEMAS

“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”. São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160.

POEMA SEM NOME

“Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.”
– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”, 1960.

HUMANIDADE

Depôis de conhecer a humanidade
suas perversidades
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguem pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrivel, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As pesimas qualidades

Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoista interesseiros
Mas trata com cortêzia
Mas tudo é ipocresia
São rudes, e trapaçêiros
– Carolina Maria de Jesus, em “Meu estranho diário”. São Paulo: Xamã, 1996. (grafia original)

Akins Kinte – Duro não é cabelo

 

Linda mulher preta

Linda mulher preta
Linda mulher
sempre juntos Guerreira de axé
Cabelos, lábios, seios,  são valores
Amamentando nossos filhos
Futuros sofredores
Fruto de amores
Pra defender a família
Segura firme a metranca
Enfrenta como mulher preta
A sociedade machista branca
Em paz com a família olhar vivo
Orgulhosa de si o semblante altivo
Se for assim pretinha
Quero sempre companheira
Nas noites mais felizes
Ou nos dias duros nas trincheiras
Em pé de guerra com o mundo
É nois guerreira
Pantera, única, verdadeira
Poder, arma conhecimento proponho
Linda mulher preta
Deusa dos meus sonhos

MULEKOTE MATUTO

num sonho de criança numa vida de adulto
hominho do barraco, líder absoluto
benzido nos terreiros fortificado no peito
com uns olhos de sorriso e um coração de luto
o pai já se fora Deus assino o indulto
herdou honra, tristeza e a manha de furto
um cinco cinco nos livros pra não te tempo curto
rezado nos sambas nos jongos nos pontos
adotou de riqueza amizade em dote
viu se bem sem bens sem luxo sem um conto
protegido e ungido por erês foi afoito
sua oração criança ele uma, fez delas cultomulekote: porta amor então ta preso e soluto
solto e ileso, nas prisões de beijos muitos
em paus-de-arara  já posto importunado imposto
negou até a morte quando ela visitou teu busto
reviraram a mente o orgulho e outros assuntos
feriram a face, mas não arrancaram o sorriso do rosto
defensor da liberdade e os baratos que eu discuto
com esperança de futuro, leva a vida no susto
preza pelos seus sempre a todo custo
entre algemas e mãos meninas ele envolto
nos funks futebol e revolta
molekote ainda, e putomais astuto
do tipo que planta e não espera o fruto
pois se não der fruta come pedra e pronto
dono de um coração robusto
dos que renasce dos cantos de amor e canto justo
inquieto com  bruto e corrupto
se matou foi sensato e abrupto
sempre na segunda com adulto
esses que não cabe ouvir, e não sabe muito
leva uma vida errada rica e inútil
Exploram os menor pra satisfazer sua vida fútil

mulekote é de sorte, de olhar enxuto
do tipo que labuta e escuta, do meu barraco escuto
palavra que carrega: respeito mútuo
quem quis  seu mal nem viu nem o vulto
por esse rezo faço bom voto
as tias da igreja ta cheia de insulto
os policiais querem a morte num tulmuto
pra num moiá depois larga num viaduto
mais mulekote num morre renasce resoluto
num rap num poema num cordel tudo junto
numa ideia de uns loucos, das damas um assunto
mulekote bom, é vida é arte sem lucro
nasce das neuroses fortão e xucro
hábil e astuto tapeando o destino
mulekote matuto

Poemas disponíveis em: https://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=2431&categoria=&lista=lidos

 

Preto Tu – Cuti “Persistência”

 

Cuti recita o poema de sua autoria, “Persistência”, que está no seu livro “Negrhúmus líricos”.

“Luiz Silva, mais conhecido como Cuti, nasceu em Ourinhos-SP. Formou-se em Letras (Português-Francês) na Universidade de São Paulo, em 1980. É Mestre em Teoria da Literatura (1999) e Doutor em Literatura Brasileira (2005), pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje-Literatura de 1983 a 1994 e um dos criadores e mantenedores dos Cadernos Negros de 1978 a 1993, série na qual publicou seus poemas e contos em 37 dos 38 volumes lançados até 2015. Tem também publicado diversos textos em antologias, incluindo ensaios. Seus poemas já foram traduzidos para diversas línguas, entre elas, inglês, espanhol, alemão.” Direto do canal PRETO TU, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-I0JSTxV0wk&gt;. 

Conceição Evaristo

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Fonte: http://flinksampa.com.br/2017/11/11/a-escritora-conceicao-evaristo-voz-importante-da-literatura-brasileira-atual-tambem-estara-na-flinksampa-2017/

“Depois de tanto ouvir sua mãe contar histórias infantis, Conceição Evaristo concluiu seu Curso Normal em Belo Horizonte. Mas somente no Rio de Janeiro, classificada em concurso, conseguiu ser professora: as famílias de BH só a queriam como cozinheira. Também na Cidade Maravilhosa, passou no vestibular para Letras na UFRJ; lá, descobriu a literatura afro-brasileira. Em 1990 começou a publicar suas poesias nos Cadernos Negros, de São Paulo. Mais tarde vieram o mestrado na PUC-Rio e o doutorado em Literatura Comparada, na UFF, sempre tratando de temas referentes a mulheres, África e negritude.”

Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/prosaepoesia/0204.html>

ACESSE TAMBÉM O LINK Entrevista com Conceição Evaristo no Estação Plural e conheça mais sobre a escritora.

VOZES-MULHERES

Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e fome.

A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

In Cadernos Negros, vol. 13, São Paulo, 1990.

FAVELA

Conceição Evaristo

Barracos montam sentinela
na noite.

Balas de sangue
derretem corpos
no ar.

Becos bêbados,
Sinuosos, labirínticos,
velam o tempo escasso
de viver.

in Cadernos Negros – vol. 15

DA MENINA, A PIPA

Conceição Evaristo

Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua,
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel
seda esgarçada
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor
e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensanguentada
que afundou num banheiro
público qualquer.

in Cadernos Negros – vol. 25